Vida Universitária

quarta-feira, 28 de outubro de 2009
As tampas da panela


O "Cada panela tem sua tampa" é um velho conhecido de todos nós. Ao ouvir essa frase quando pequeno, não deixava de pensar o quão verdade ela era, pois sempre que passava pelo fogão da minha vó - fonte de inúmeras refeições - reparava que todas as panelas, de fato, tinham suas respectivas tampas. Curiosamente, talvez pelo sentido metafórico da frase, eu também imaginava que a panela em si era feita por uma "pessoa" e a tampa, por outra, e elas magicamente se encontravam e se encaixavam em algum canto do mundo durante o processo todo de produção.

Alguns anos se passaram e eu comecei a entender o que a frase realmente representava, o que acompanhou o encontro com "as metades da laranja", também nossa velha conhecida, e com o "alma gêmea" que pelo que vejo por aí, começou a cair em desuso. E já era hora. E, finalmente, todo esse grupo de panelas, frutas e almas acabou sendo coroado com a célebre frase "Se toda panela tem sua tampa, eu sou uma frigideira".
De início simpatizei com a frase. É aquele tipo de comentário rápido e esperto que se utiliza de um contexto prévio ao mesmo tempo que sai dele. Era genial. E acabou sendo tão genial que eu, por um amontoado de acasos, infelicidades, bobeiras e desvios de caráter, acabei fazendo dela quase que uma epígrafe pessoal.

Panelinhas encaixando aqui e ali, laranjinhas se juntando e produzindo suquinhos, almas se encontrando... tudo parecia muito tonto artificial, pra mim. Não me entendam mal, adoro cozinhar e sou apaixonado por laranjas... almas são um caso à parte, mas algo nessas metáforas todas parecia falho, algo parecia não encaixar. Não demorou muito pra que eu começasse a observar que havia tampas de umas panelas que se encaixavam em outras, ou até que algumas tampas, mesmo não encaixando, faziam o serviço de tampar muito bem; algumas dessas eram até melhores do que as que encaixavam, porque deixavam um espacinho para o que estava dentro da panela "respirar", o que às vezes é necessário na cozinha. E as laranjas sempre me intrigaram: se era pra eu encontrar minha metade da laranja, isso significa que nós, eu e minha metade, éramos uma laranja inteira em algum ponto da vida? Mas então, quem nos separou? Nunca fui separado de ninguém, exceto de minha mãe... e bom, acho as teorias Freudianas insanas extravagantes demais, então isso não significa nada para moi.

E assim eu fui crescendo e crescendo e lapidando mais a epígrafe da frigideira, ao mesmo tempo que ia derrubando panelas e tampas, esmagando laranjas e exorcizando almas por aí. E olhando pra trás, vejo um caminho um tanto quanto direto que me trouxe ao ponto em que me encontro hoje: ser um serzinho que estaria de mãos dadas com o gauche do Drummond. Um gauche que acabou desviando de todos os exemplos que meus instrutores e educadores me deram, formando opiniões opostas às deles e que, por fim, não acredita em uma só tampa em cima de mim, ou de uma só laranja inteira fazendo suco junto comigo ("inteira" porque essa história da metadinha incompleta não rola), ou sabe-se lá mais o quê no singular tendo uma relação comigo.

Também não vejo muita graça em macacos que pulam de galho em galho, mas tem horas que por mais que sua casa e todo seu carinho estejam depositados em um galho, aquele outro tem frutos que o seu não tem. E para pegá-los, é necessário se desprender fisicamente deste galho para alcançar o outro e depois voltar para seu galho, satisfeito. Ainda não achei motivos o bastante para invalidar esse meu posicionamento. O que mais ouço em relação a isso é a já desgastada frase "Mas se você tem um sentimento pela pessoa e um relacionamento com ela, é errado trai-la." ou "se você gosta, então pra quê trair?". São dois os pontos que permeiam essas questões:

1) Quem disse que é errado? Papai e mamãe, o padre, o pastor, o bispo, a novela, o livro, o filme? Legal. E quem disse pra eles? Seus papais e mamães, seus padres, bispos e pastores, suas novelas, livros e filmes. E quem disse pra eles? ... E assim vamos indo, indo e indo até chegarmos a um ponto onde a monogamia não ocupa mais o lugar que ocupa hoje. No passado, o conceito era tão diluído quanto Tang em jarra de suco. Uma relação monogâmica era uma mera característica de um determinado relacionamento e não um dever moral, como é hoje. A monogamia não foi nada além de mais uma instituição social que atendeu aos interesses de um grupo dominante. A crítica a essa instituição vai muito mais além dela própria, já que ela não se encontrava solta por aí, mas sim conectada a um outro grande grupo de valores, regras de conduta e crenças que também foram instituídas em um momento sócio-político adequado. Mas isso não é assunto pra hoje.

2) A primeira definição para o verbete "trair" no dicionário Michaelis é "enganar por traição; atraiçoar". A primeira palavra da definição é "enganar", que se define por "empregar enganos; embaçar, embair, iludir" no mesmo dicionário. Então é plausível afirmar que a "traição" em um relacionamento a dois envolveria um emprego de engano e de ilusão por parte de um pareceiro, ou seja, envolveria mentira. Mas... e se não envolver? O mero fato de relacionar-se com outra pessoa em um campo exclusivamente físico constituiria traição? O carinho, o sentimento, a admiração e todo os outros trá lá lás pelo parceiro amoroso ainda continuam lá. A única coisa que saiu de cena foi o corpo de um dos dois. "Mas você deveria se satisfazer fisicamente com seu parceiro". Sem dúvida que a satisfação física faz parte integrante de um relacionamento a dois, mas todas as satisfações físicas nunca serão atingidas com apenas uma pessoa (ou até mesmo com várias delas). Há sempre alguma(s) coisa(s) que a pessoa simplesmente não tem e que a vizinha tem. Não entendo a lógica do se privar de outros prazeres diferentes por conta de um relacionamento. Como disse, o único elemento do relacionamento que sai de cena é o corpo. Então há duas possibilidades: Ou a relação "físico / sentimental" já se tornou absurda e erroneamente indissociável ou a posse tem um papel importante e determinante no relacionamento.

Aguardo ansiosamente alguém que possa me oferecer argumentos inteligentes em uma conversa que propiciem uma discussão frutífera a respeito disso tudo. Enquanto isso, rolo minha pele de ovelha no piche e na sujeira, ficando cada vez mais escurinho no rebanho.
posted by Rafael @ 12:55  
2 Comments:
  • At 10 de novembro de 2009 às 20:15, Blogger Unknown said…

    não sei se meus comentários seriam considerados inteligentes e talvez nem seriam argumentos.
    mas em todo caso, em parte concordo. ninguém deveria seguir as convenções morais impostas por essa sociedade artificial. nada pode e nem deve ser considerado verdade irrefutável. se o que funciona pra voce é um relacionamento livre e sincero [pode não haver exclusividade, mas falta de sinceridade arruinaria TODO e QUALQUER tipo de relação] entao que seja.
    mamães, papais, padres, novelas e livros estipularam padrões e regras a serem seguidas, mas o que de fato as tornaram dogmas foi a aceitação geral. eu digo.. um dos meiores problemas do mundo é a submissão e falta de senso crítico.
    nem sempre o que é melhor pra você é melhor pra mim. nem sempre o que é errado pra você é errado pra mim e por aí vai. as pessoas devem seguir os seus próprios valores e abstrair as críticas dispensáveis, como as que você ouve em relaçao à SUA opnião sobre o que melhor se encaixa ao SEU estilo de vida e conceito de felicidade.
    o que você ouve dessas pessoas talvez seja o que as fazem feliz e se é assim, bom.. com alguma delas você não vai ter muita chance, né? hauha

    o.o é, acho que eu dissertei.

    só uma observação.. muito legal o seu blog. ;)

     
  • At 11 de novembro de 2009 às 08:51, Blogger Unknown said…

    desculpa, tive que voltar. hauia

    pensando sobre, percebi: as pessoas sentem necessidade de outras, sim. nao adianta tentarem dizer que não, tentarem parecer moralmente corretos. todos, vez ou outra, sentem vontade de variar um pouco. é a necessidade de sair da rotina.
    o que acontece é a falta de confiança, não no parceiro, mas no sentimento do parceiro. insegurança.. 'ah mas e se ele gostar mais dela? e se ela tiver mais do que só atritubutos físicos que ele nao encontra em mim?' e acho que com razao, talvez.
    é muito dificil, diria raro, encontrar duas pessoas completamente e sinceramente abertas e com segurança tamanha no que um sente pelo outro.
    a questão não é a fidelidade e sim a LEALDADE.
    é preciso muuuuuito trabalho. nao sao todos que estão dispostos a arriscarem a chance de perder pra concorrencia. nao sao todos que sentem essa confiança.. 'vai, pode ir. eu sei que você nao encontra quem me substitua'
    é autoconfiança sim, mas não só. assim como o relacionamento, essa questão depende de dois.

    éé.. voce deveria ter encontrado a Yoko antes de John huaihaui

     
Postar um comentário
<< Home
 
 
Pessoa

Quem? Rafael

Rafael? Clique aqui

Onde? Bauru, SP

Por quê? Depois de um intenso ano de estudos consegui o que queria: uma vaguinha em uma univer- sidade pública, no caso, a Unesp. Com o pacote, veio a necessidade de deixar Sampa City e começar uma nova vida aqui.

E...? Estudo psicologia

Experiências anteriores
Recapitulando
 
Links
Powered by

Free Blogger Templates

BLOGGER