Vida Universitária

domingo, 12 de julho de 2009
O mundo em CRF


Sim. Esse é mais um post nerd que se utiliza de conhecimentos acumulados no maravilhoso curso de Psicologia da não tão maravilhosa Unesp. Mas fazer o quê! A gente fala do que pode.

Contextualizando: Para quem não sabe, a Análise do Comportamento - que costuma dar sempre uma passadinha aqui - é a sombria "Psicologia Experimental", alvo de críticas de diferentes ONGs e chatões pessoas que são contra experimentos com animais. O principal instrumento utilizado nos experimentos laboratoriais é a famosíssima "Caixa de Skinner", uma caixola simpática com uma barrinha de metal que, quando pressionada, faz uma alavaquinha esperta descer e pegar uma gota d'água numa cuba, disponibilizando-a dentro da caixa. Cada animal tem seu modelinho de caixa, com pombos usando discos para bicar e ratos usando esse modelo que descrevi acima. Existem outras variações da caixa que liberam alimento, ao invés de água, e que permitem o experimentador fazer outras maldades peripécias com o animal.
Na Unesp de Bauru (UH, UH, Unesp Bauru!) utilizamos o modelo que descrevi com mais detalhes e não, não maltratamos o bicho rato albino Wishtar. Entretanto, para que seja utilizada a caixa, é necessário que o animal esteja em privação de água, no caso. Não é que a criatura fica bebendo a própria urina de tanta sede. É uma privação de um ou dois dias, no máximo, dependendo da temperatura. Assim, a água assume o papel de reforçador, ou seja, algo que o animal provavelmente deseja e que, como consequência de um comportamento, tem a propriedade de aumentar a probabilidade de emissão do comportamento que o disponibilizou/causou. Privado, o bichinho peludo é colocado na caixa e os estudos giram em torno de diferentes programações para a relação "pressionar barra - obter reforço (água, no caso)". O esquema mais simples é o Continuous ReinForcement (Esquema de Reforçamento Contínuo, na língua do Tio Sam), que consiste na obtenção de reforço a cada resposta de pressão à barra.
A grosso modo: Emitiu a resposta "certa", obteve o que queria.

Pensando: Meu ponto é a hipótese de um mundo que funcionasse sob os efeitos do CRF, ou Reforço Contínuo. Tudo que quiséssemos, desde que emitíssimos as respostas corretas, nos seria dado.
- "Mas tio Rafa, se a gente faz as coisas direitinho não há uma justiça no universo que nos conceda aquilo que queremos?"
Não. Não há.
- "Mas... mas... mas... então estamos desamparados nessa imensidão negra do Universo?"
Eerrr... então, né...
Bom, brincadeirinhas à parte, a possibilidade de que "respostas corretas sempre levam à obtenção daquilo que desejamos (reforço)" é mais fraudulenta do que o mito do velho barrigudo que voa com renas mágicas, carregando uns 6 bilhões de presentes.
Toda vez que você liga pra Telefônica pra reclamar do seu Speedy o problema é resolvido? Não. Você emitiu a (única) possível resposta certa? Sim.
Mas então rompamos com as amarras dessa triste realidade e imaginemos por um momento que tudo que fizéssemos fosse um caminho para a obtenção de reforço. Será que o mundo seria um lugar muito diferente, crianças?

- "Siiim, tio Rafa! As pessoas seriam muito mais felizes!"

Errr... tio Rafa acha que nem tanto assim, crianças. É óbvio que conseguirmos o que quiséssemos, desde que emitíssemos respostas adequadas, seria uma ótima saída pra muitos de nossos probelmas. Mas lembrando do procedimento dentro da caixola de Skinner: o animal precisa estar em um estado de privação de reforçadores pra que ele emita respostas que possam disponibilizar-lhe reforçadores. Se obtvéssemos tudo o que quiséssemos sempre que emitíssemos respostas dirigidas a essa obtenção, nunca estaríamos privados de reforçadores. E a privação nossa de cada dia é um dos principais elementos que fazem a maquininha do ser humano funcionar. "Conquistar" seria um verbete rapidamente apagado do dicionário, por exemplo. Então uma parcela do mundo seria mais "cinza" do que já é. Além disso, há os preguiçosos de plantão. Mesmo com a garantia de reforço, o custo de emissão de respostas, para algumas pessoas, é alto demais e o caminho é optar pelo ócio momentâneo.

Assim, temos uma parcela da população que ficaria felicíssima por conseguir tudo o que quer, uma outra parcela que ficaria desmotivada por não haver desafio ou quedas no meio do caminho, e uma terceira parcela que não move a balança nem pra lá, nem pra cá.

Ou seja: No fim do dia, essa bola azul gigante continuaria a mesma.

É. Nós, humanos, somos retardados excêntricos. Mesmo.
posted by Rafael @ 23:18  
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Por quê? Depois de um intenso ano de estudos consegui o que queria: uma vaguinha em uma univer- sidade pública, no caso, a Unesp. Com o pacote, veio a necessidade de deixar Sampa City e começar uma nova vida aqui.

E...? Estudo psicologia

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