| sábado, 14 de março de 2009 |
| No papel |
Sento-me à mesa. Alcanço um bloco de folhas em branco e ponho-o sobre ela, à minha frente. Agarro a caneta favorita, ajeito-me na cadeira e fico de coluna ereta por alguns instantes, só para, dali a pouco, voltar à costumeira péssima e arqueada postura.
A caneta fica a postos, rente ao papel, mas logo viaja por entre meus dedos, numa brincadeira desengonçada e sem sentido que parece ansear pelos movimentos ordenados de uma escrita. Olho para o longe, para o perto, para o chão e para o teto, em busca de uma inspiração, uma definição do abstrato interior que se expressaria em palavras inteligíveis no papel. Penso... Penso... Olhos perdidos na brancura do papel, na monotonia das cores da parede, do padrão de cores da toalha de mesa. Penso... Penso.
Nada. Deixo a passividade da espera de uma inspiração de lado e saio à caça incisiva de alguma coisa, alguma concretude, alguma palavra definida para dar o primeiro risco de tinta no papel à minha frente. . . . Nada também. Incomodo-me, não compreendo. A brincadeira sem sentido com a caneta agora dá lugar a uma batida frenética de sua ponta na mesa e uma impaciência de minha parte. A caneta batendo, os olhos perdidos, perna e pé acompanhando o ritmo alucinado dos "tecs" da caneta na mesa. . . . Paro. Acho alguma coisa. Medo. Medo? Sim, medo. Franzo a testa, contraio as sobrancelhas, recuo a cabeça. Procuro compreender aquele medo. De onde vem, por que se encontra ali? Mais alguns momentos e encontro algumas respostas.
Temo, na verdade, encontrar as palavras que procuro para colocar no papel. Encontrá-las seria dar forma real ao que foi tão especial e unicamente instalado no interior, de maneira lenta e secreta. Encontrá-las seria obrigar-me a aceitar sua presença, a dar começo, meio e fim a tudo que eu encontrar. E com isso, vejo que, na verdade, o que me faltava não era a inspiração. Percebo que em momento algum eu quis, verdadeiramente, preencher aquele papel e definir, dar um sentido, começar e terminar uma narrativa ligada ao que se passava. O que desejo não é ser o narrador, mas ser uma personagem de uma narrativa que impressiona e emociona com todas suas faltas de nexo, fugas à lógica, imprevisibilidades e singularidades. Quero ser levado pela história, pelo incompreendido, pela surpresa, pelo susto, pela saudade, pelo sorriso repentino no rosto e deixar de lado a lógica, a busca pela identificação, previsibilidade e controle. Quero fechar os olhos, sentir o vento soprando de diferentes direções e ter vertigens de desequilíbrio.
Largo a caneta e guardo as folhas, que continuam em branco. Levanto-me da cadeira e saio dali, com um sorriso no rosto, de encontro ao inesperado. |
posted by Rafael @ 22:42  |
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| 1 Comments: |
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enquanto lia, um sorriso me veio ao rosto. lindo, lindo...
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Por quê? Depois de um intenso ano de estudos consegui o que queria: uma vaguinha em uma univer- sidade pública, no caso, a Unesp.
Com o pacote, veio a necessidade de deixar Sampa City e começar uma nova vida aqui.
E...? Estudo psicologia
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