Vida Universitária

domingo, 20 de julho de 2008
Um beijo a mais


Modéstia à parte, sempre costumei ter um bom palpite para filmes interessantes. Dessa vez, o trailer do filme cujo nome é o título do post me chamou a atenção. Aparentemente, tratava-se da história de tentação de Michael, um homem de 30 anos que, namorando há 3 anos, engravida a mulher e começa a ter que encarar a possibilidade de casar-se e terminar com "as surpresas da vida". Seu objeto de tentação é a jovem Kim, uma universitária morena que mostra estar interessada nele.

No final das contas, o filme é muito mais do que isso. Embora seu epicentro seja, de fato, o medo que Michael sente ao deparar-se com os possíveis eventos futuros de sua vida amorosa com Jenna, sua namorada, há também os conflitos das pessoas ligadas ao casal. É um filme leve que, para quem tem ouvidos, manda algumas mensagens que, a meu ver, deveriam ecoar na cabeça de quem as ouve por um tempo. Assistam, recomendo.

De qualquer forma, acabei usando o filme como gancho para o post. Há tempos que venho querendo escrever alguma coisa aqui sobre relacionamentos, amores, valores etc., mas a falta de inspiração é um fator limitante. Aliás, tenho que admitir que todas as vezes em que a inspiração para escrever sobre isso veio, ela o fez por motivos de irritação ou indignação com algo relacionado à mensagem que queria escrever. Mas não desta vez!
Sendo direto: Entristeço-me quando começo a observar alguns amigos que começam a se enamorar por terceiros ou já namoram com eles há um certo tempo. A tristeza tem diferentes fontes e é preciso separá-las para que a crítica se torne mais direta.

Além de me entristecer, enojo-me com os "casais" que permanecem juntos, mas um dos parceiros (ou os dois, por quê não?) não honra os votos implícitos que são feitos ao se começar um namoro - aqueles básicos, de respeito, fidelidade e coisas do gênero. Se não os honrará, então por quê diabos começar a namorar? Talvez pelo status que se ganha ao namorar e ao usar uma rodela prateada no dedo anular. Viva a banalização do namoro, viva a banalização da aliança também. Não me importaria de forma alguma se, por acaso, todas as pessoas que agem dessa forma misteriosamente sumissem do planeta. Tem horas que a ficção faz falta!

Uma tristza que me cansa, que me afasta do desejo de sair por aí me aventurando no enamoramento, reside na observação da estúpida intesidade exagerada que há em muitos dos namoros que observo. Aqui, falo especialmente daqueles namoros iniciais - os de semanas até uns 3, 4 meses. [Sinto que preciso abrir um grande parênteses. (Não que eu esteja criticando nosso ritmo de vida ridiculamente acelerado, no qual a soma entre tempo anual de sono e o tempo que se passa em casa ou não pensando em trabalho não chega nem na metade da soma do tempo anual que se passa indo trabalhar, trabalhando e se preocupando com o trabalho. Não! Jamais faria isso! Longe de mim! De qualquer forma, hoje, 3 ou 4 meses podem ser traduzidos como 8 finais de semana, se você tiver sorte. 8 finais de semana são 16 dias. Suponhamos que seja um casal empolgado e eles tenham se empenhado em se ver outros 16 dias. Estes dias são dias de trabalho normais, então o casal deve ter gastado, no máximo, 3 horas de seus dias para este propósito.
3 horas X 16 dias = 48 horas = 2 dias.
Em outras palavras, 4 meses de namoro = 18 dias de convivência, enfatizando que considerei que o casal passasse juntos todas as 48 horas do final de semana.) Fechados os parênteses e depois da devida observação acerca dos "namoros iniciais", continuo.] Por falta de palavras, é ridículo ver como estes recém-namorados se acham possuidores do mais intenso, sincero, sublime, puro e (especialmente) infinito amor. Sem dúvida que eu acredito que um começo de namoro deve ser intenso, sim! Se não, quando será? Mas a enxurrada de "eu te amo"s e, piores, "eu te amo pra sempre"s é de deixar qualquer pessoa de bom senso sentindo um cheiro bem forte de coisa patética no ar. Como disse, 4 meses = 18 dias de convivência. É humanamente possível amar verdadeiramente uma pessoa em menos de 18 dias? Acredito que não. Vou amar pra sempre a pessoa que me provar o contrário.
Viva a banalização do amor!

Minha tristeza, em sua forma mais pura, não é exatamente fruto da observação dos relacionamentos atuais, mas sim do que supostamente deveria ser sua força motriz: esse sentimentozinho do qual acabei de falar. Nesse ponto, não me refiro aos namorecos embrionários. Agora falo dos namoros ditos "firmes", "verdadeiros", "duradouros", aqueles nos quais seus integrantes enchem a boca para falarem dos N anos que estão ao lado da pessoa amada. A Matemática poderia fazer sua aparição mais uma vez e rapidamente transformar estes anos em meses, mas tudo bem! Deixo estes casais felizes com seus aniversários. O que me incomoda profundamente neste grupo é a natureza e a essência de seus amores. É difícil encontrar um casal cujo amor é puramente amor e não um contrato. Sim, contrato. É mais ou menos assim: "Eu, fulano, sou carente. Então, quero alguém para me dar carinho e para depositar todo esse déficit afetivo. Eu, cicrana(o), sou possessiva e gosto de exclusividade, de estar sempre em primeiro lugar." Desde que sejam supridas as demandas pessoais dos cônjuges, tudo corre bem. O "amor" nada mais é do que a tinta da caneta usada para assinar este contrato. E a tinta, por sua vez, é o sentimento de satisfação e, em certa medida, plenitude em ter seus anseios atendidos. Em outras palavras, é difícil achar, ali, um amor real.
Há aqueles que namoram pelo excesso de tempo de relacionamento - afinal, quem "fica" por 8 meses? E estes acabam, como que por inércia, "amando" o parceiro . "Ora bolas, não se deve amar a(o) namorada(o)? Pois bem, estou amando!"
Outros amam sensações, momentos, companhias, oportunidades - amam tudo, menos o parceiro. No entanto, é claro, sem dúvida o orkut dos dois estará recheado de "ésse-dois", mensagens do mais profundo afeto e ocasionais "invasões de perfil".

Mas por fim, a parcela mais intensa da minha melancolia conjugal está na transformação do "namorar" em um pequeno, simples e barato produto enlatado a vácuo. A atitude de namorar tornou-se um conjunto de requisitos vazios, práticas que se tornaram costume e vêm sendo repetidas senselessmente por casaizinhos em toda a parte. Para namorar é preciso ter uma aliança prateada no dedo (ou ela tem uma parte giratória, ou é ridiculamente grande, ou ridiculamente cara), milhões de "eu te amo" no orkut (preferencialmente de cores diferentes), depoimentos com mais declarações virtuais de amor, ter apelidinhos carinhosos, discursos tatibitate, ciúme, insegurança, polaridades magnéticas opostas (alguns casais são simplesmente in.se.pa.rá.veis), sempre trocar presente no dia dos namorados e dar um cartãozinho "fofo" de R$12,90 comprado em alguma livraria no shopping.
E é comum a cobrança para comprar esse enlatadinho patético. Se não se está namorando em plenos vinte-e-poucos anos, alguma coisa está errada!

Lembro-me da minha primeira (e única) experiência com namoro. Após alguns dias de oficializada a união, em meio a uma conversa casual de MSN, me foi dito que precisávamos decidir qual seria o apelidinho carinhoso do outro. Isso já tem alguns anos e não me lembro de muitas das sugestões, mas lembro que quase me tornei o "moranguinho" ou o "abacatinho" (e eu nem gosto dessas frutas!). Como éramos da mesma escola, acabei enfrentando problemas por não passar o "recreio" com ela, afinal de contas, é realmente um absurdo passar 15 minutos com outras pessoas. Imperdoável. O grande ponto final foi enfrentar mais problemas devido a minha condição diabética de não conseguir lidar com o "doce" de algumas atitudes e a incapacidade de me jogar no discurso tatibitate. Enfim, não durou e o bambolê de prata não entrou na minha mão direita.

Não ousaria entrar no mundo daqueles que colocam o parceiro acima de todas as outras coisas - amigos, família, si mesmo etc. É um universo demasiadamnte cansativo para que eu escreva sobre ele, pelo menos agora. Mas deixo claro meu desejo sincero de que a relação destas pessoas um dia venha a terminar e elas possam enxergar a gigantesca idiotice que fizeram.

Enfim!
Sou cético em relação ao amor? Em partes, sim, admito. Em partes, não, acredito. Não sei ao certo se algum dia eu já experimentei esse "amor real" de que tanto falei no post. Se não o senti, também não tenho certeza se virei a senti-lo algum dia. O que tenho certeza absoluta é que ele existe. Não por vê-lo em outras pessoas (se fosse assim, estaria perdido), mas por experimentá-lo em uma forma diferente. O amor phileos (palavra grega para designar um tipo fraterno de amor) é, em mim, a maior e mais importante fonte de energia para viver. Pensando racionalmente, se tal amor existe, então obrigatoriamente seu irmão próximo também está flutuando em algum lugar por aí.

Quando eu defino amor nas minhas conversas com meu travesseiro, sempre opto por defini-lo como uma força. Não gosto muito de me aproximar daquelas visões românticas de amor, como aquela coisa metafísica, lendária, cheia de "pirimpimpins" e gliter. A melhor definição que essa minha mente lógico-racional tem para esse sentimento é, de fato, a de tratar-se de uma força, assim como todas as outras da Física. Assim como o peso, o amor é uma força invisível forte o suficiente para nos conduzir e mover por caminhos muitas vezes estranhos. Ele tem intensidade, sentido e direção, sem dúvida alguma. E, assim como suas irmãs da Física, o amor não existe sozinho. Sua sobrevivência também depende de uma série de outras variáveis, fatores e forças, inclusive.

Durante este ano, não foram poucas as vezes que questionei-me a respeito do amor eros (aquele que, em tese, temos quando estamos enamorados). Passar uma vida inteira sem senti-lo é, realmente algo tão monstruoso quanto dizem? Eu não teria vivido e se não o tivesse vivenciado? Ainda não tenho estas respostas e, honestamente, temo encontrá-las um dia.

Enquanto não encontro ninguém que possua a capacidade de me apresentar verdadeiramente o sentimento, vou vivendo e respirando como sempre, batalhando para aproveitar o amor que já tenho (sim, é sempre uma luta!) e esperando, "do fundo do coração", que caso venha a namorar, não me seja oferecido o enlatado do amor, para que, dessa forma, talvez, eu e minha relação afetiva sirvamos de inspiração para que algum outro ser entristecido com namoros possa ver que sim, há uma alternativa.
posted by Rafael @ 00:22  
1 Comments:
  • At 26 de julho de 2008 às 11:51, Blogger mayra said…

    se eu não estou enganada, o final - só o final - desse filme não é muito bom... mas a trilha sonora é linda :)

    então, sobre o post enorme, eu concordo com absolutamente tudo, meu amigo. existe muito comodismo nesses namoros que a gente vê por aí. as pessoas não conseguem ficar sozinhas e sem uma aliança (FEIA!) no dedo. ô mau gosto, viu?

    enfim, a gente vai se ver em bauru, pô, tenho fé hahaha

    p.s.: paixonite SEM aliança! hahaha
    beeijo

     
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Por quê? Depois de um intenso ano de estudos consegui o que queria: uma vaguinha em uma univer- sidade pública, no caso, a Unesp. Com o pacote, veio a necessidade de deixar Sampa City e começar uma nova vida aqui.

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