| domingo, 29 de junho de 2008 |
| A flor de Drummond |
Há tempos que não apareço por aqui com um post verdadeiramente pessoal. Não que uma citação ou um post mais curto não tenha cunho pessoal, pelo contrário, mas acho que o que estou tentando dizer já foi entendido.
Devido a esse longo intervalo, queria escrever e escrever sobre mais pequenas mudanças e aprendizados que venho acumulando com a vida por aqui, mas acho que me tornaria demasiado repetitivo. O que digo com a maior das alegrias é que tudo está sempre mudando, pelo menos por aqui. Para alguém que estava enterrado sob metros de concreto fixo e imutável, isso é algo para comemorações, acreditem. É quase como aquela flor de Drummond que perfura o asfalto. São palavras que lentamente se tornam mais fáceis de sair, são ações que ganham mais significado com diferentes pessoas, é o escasso e ao mesmo longo tempo que deixa com gosto de "quero mais", são braços que se entregam a abraços.
Idiossincrasias subjetivas à parte, nestas últimas semanas encontrei-me com alguns lados da realidade que ainda se remexem dentro dessa minha cabeça grande. Semana passada visitei o CIAVI, um órgão municipal e centro de referência no atendimento a crianças, adolescentes, mulheres, idosos e portadores de deficiência vítimas de violência domiciliar (que variam em muitos tipos). A entrevista com dois dos psicólogos responsáveis pelo atendimento foi riquíssima e serviu como uma lente para enxergar um quadro preocupante de nossa atualidade: os casos de violência domiciliar estão aumentando e os profissionais na área, diminuindo; a rede social pela qual as instituições de saúde se ligam está absolutamente quebrada; os órgãos que os supervisionam e direcionam estão desatualizados e por vezes dificultam o trabalho destas instituições. Já ouvi dizer que números configuram credibilidade e concreção às palavras, então aqui vai: o CIAVI tem mais de 1000 protocolos abertos e apenas 3 psicólogos atuantes que atendem uma média de 60 casos semanalmente. Destes casos, 60% das notificações são acerca de violência com crianças entre 0 e 6 anos. Em alguns tratamentos, é necessária a intervenção emergencial de um psiquiatra, mas em toda a rede de saúde de Bauru há apenas 4 profissionais nesta área - 2 estão de férias, 1 afastou-se com licença médica e outro atua no hospital estadual apenas nas Terças e Quintas, na parte da manhã, e Bauru tem quase 400.000 habitantes. A SEBES (Secretaria Municipal do Bem-Estar Social), pela qual o CIAVI é conveniado ao município, não tem psicólogos em sua equipe de profissionais, dificultando o diálogo entre o Centro e os órgãos de poder municipal. Foi difícil ouvir os psicólogos que entrevistamos e ver todos os obstáculos enfretados por eles diariamente, mas foi incrivelmente animador ver a dedicação deles na realização deste trabalho. Inclusive, uma das psicólogas, formada em Jornalismo e Psicologia, antes atuava na área organizacional - minha área de interesse - e devido a um tédio proveniente de sua prática profissional, acabou pulando para a área social, na qual encontra-se atualmente com muito gosto, diga-se de passagem. É, a vida pode ser cheia de surpresas!
Neste final de semana, fui à 2ª Jornada de Sexualidade de Ribeirão Preto, onde são apresentadas várias palestras sobre o assunto - a experiência foi riquíssima também. Fui para lá com um amigo de sala e por muito pouco não teríamos casa para ficar por lá. Acabamos ficando na casa de 3 amigos dele, fazendo rodízio entre um colchão e 2 "pufes" para dormirmos. Aventuras são necessárias! Durante a Jornada foram apresentados trabalhos interessantíssimos que mostravam um quadro também preocupante. Ainda se fala muito pouco sobre o assunto, que sofre uma censura terrível por parte de pais, escolas, veículos de mídia etc. Até mesmo médicos se recusam a abordar o tema em seus consultórios, mesmo que faça parte integrante da esfera de saúde e qualidade de vida do paciente. São ministradas drogas que diminuem significativamente a libido de pacientes, mesmo havendo outras alternativas, e é freqüente a resposta destes no sentido de que estão felizes pois, embora não façam mais sexo, estão vivos. Profissionais - especialmente médicos - estão ignorando a importância da interdisciplinariedade entre as diferentes áreas de atuação e acabam por focar-se apenas nas dimensões que lhe pertencem: houve trabalhos que apenas mostraram o efeito de diferentes dosagens químicas de determinados remédios na ereção masculina, por exemplo. Porém, esta situação mostrou estar mudando, mesmo que lentamente. O preconceito também foi tema bastante presente durante a Jornada, que contou com a participação de garotas de programa e seu agente e também de homossexuais. Entrar em contato mais profundamente com o tema proporcionou a mim e a meu amigo muitíssimas idéias e questionamentos e, quem sabe, delas saia um projeto grande acerca do assunto.
Aliás, idéias e discussões de nossa parte não faltaram, tanto sobre sexualidade como sobre questões sociais. O problema é que elas são apenas idéias e o mundo está repleto delas. De qualquer forma, todas as ações humanas concretas precisam, necessariamente, partir antes de um mundo imaterial de idéias.
Pensem, pensem, pensem. Olhem mais ao redor de vocês, especialmente ao redor mais próximo: a sua família, a sua casa, seus amigos, sua escola, sua faculdade, seu trabalho. A sociedade está doente e, dessa forma, não podem haver indivíduos absolutamente saudáveis. Questionem o funcionamento das coisas, das relações, da atual situação dentro de cada um destes relacionamentos e espaços. O que pode ser feito para mudar? As menores das atitudes contam bastante. Não é preciso ser uma ativista ou um militante para mudar as coisas. Nem tampouco é preciso querer salvar o mundo. Trata-se de salvarmos a nós mesmos.
Termino me remetendo a Drummond e sua flor que perfura o asfalto: "(...) garanto que uma flor nasceu. (...) É feia. Mas é realmente uma flor. (...) lentamente passo a mão nessa forma insegura. (...) É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio." |
posted by Rafael @ 16:29  |
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Quem? Rafael
Rafael? Clique aqui
Onde? Bauru, SP
Por quê? Depois de um intenso ano de estudos consegui o que queria: uma vaguinha em uma univer- sidade pública, no caso, a Unesp.
Com o pacote, veio a necessidade de deixar Sampa City e começar uma nova vida aqui.
E...? Estudo psicologia
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