Vida Universitária

terça-feira, 16 de novembro de 2010
Certezas.


O que é mais difícil de ter: a própria certeza, ou o ponto final que deveria acompanha-la? Lanço a pergunta porque é fácil dizer ter certeza de modo incerto, ou de colocar um ponto final em uma decisão só para amanhã fazer tudo diferente. A certeza realmente certa é rara de vir. O ponto final que fecha – ou abre – capítulos inteiros em uma vida talvez não seja tão raro, já que somos forçados a nos pontuar, mas acredito ser difícil de ser dado de peito cheio: o típico “É isso mesmo. Ponto.”

Depois de pouco mais de duas décadas de vida, muitas decisões, certezas e pontos, as páginas de um livro onde errar era comum e permitido estão acabando. Daqui a pouco – realmente pouco – o livro chega ao fim e começar outro é mais uma obrigação do que um desejo. E nesse, os erros custam caro. É a vida realmente adulta, onde não há muito espaço para dormir na aula, jogar aquelas tardes fora, ou esquecer do mundo. O que é feito tem repercussões muito mais diretas e difíceis de serem contornadas, expressas agora em quase todo tipo de decisão: especialização ou mestrado? Clínica ou trabalho fixo? Desenvolvimento humano ou comportamento verbal?... Cada uma dessas decisões e um mundo de consequências a curto, médio e longo prazo. E a certeza e o ponto final?

É a construção do tipo de livro onde é esperado que alguém “feito” seja encontrado o quanto antes nas páginas. Aos 30, 40, tudo parece pronto: não parecem haver grandes reviravoltas, surpresas, decisões possivelmente catastróficas ou sonhos em construção. Tudo já parece ter sido feito. É claro, só parece, mas mesmo assim, parece. Se tudo parece estar mais ameno e estabilizado aos 30, então os capítulos dos 20 devem minimamente apontar nessa direção. E pra escrevê-los, pergunto: e as certezas e os pontos finais?

E se no meio dos capítulos, o rumo do livro se relevar diferente? E se os parágrafos não agradarem? E se o texto não fizer sentido? E se não houver tinta o bastante? E se o investimento for à toa? E se você se preocupar tanto com as páginas, que se perde nelas?

Ao fim das perguntas, respondo: Não sei. Não sei onde estão as certezas, tampouco os pontos finais. Mas sei onde estão todas as dúvidas e os pontos de interrogação.
posted by Rafael @ 02:45   0 comentários

quarta-feira, 28 de outubro de 2009
As tampas da panela


O "Cada panela tem sua tampa" é um velho conhecido de todos nós. Ao ouvir essa frase quando pequeno, não deixava de pensar o quão verdade ela era, pois sempre que passava pelo fogão da minha vó - fonte de inúmeras refeições - reparava que todas as panelas, de fato, tinham suas respectivas tampas. Curiosamente, talvez pelo sentido metafórico da frase, eu também imaginava que a panela em si era feita por uma "pessoa" e a tampa, por outra, e elas magicamente se encontravam e se encaixavam em algum canto do mundo durante o processo todo de produção.

Alguns anos se passaram e eu comecei a entender o que a frase realmente representava, o que acompanhou o encontro com "as metades da laranja", também nossa velha conhecida, e com o "alma gêmea" que pelo que vejo por aí, começou a cair em desuso. E já era hora. E, finalmente, todo esse grupo de panelas, frutas e almas acabou sendo coroado com a célebre frase "Se toda panela tem sua tampa, eu sou uma frigideira".
De início simpatizei com a frase. É aquele tipo de comentário rápido e esperto que se utiliza de um contexto prévio ao mesmo tempo que sai dele. Era genial. E acabou sendo tão genial que eu, por um amontoado de acasos, infelicidades, bobeiras e desvios de caráter, acabei fazendo dela quase que uma epígrafe pessoal.

Panelinhas encaixando aqui e ali, laranjinhas se juntando e produzindo suquinhos, almas se encontrando... tudo parecia muito tonto artificial, pra mim. Não me entendam mal, adoro cozinhar e sou apaixonado por laranjas... almas são um caso à parte, mas algo nessas metáforas todas parecia falho, algo parecia não encaixar. Não demorou muito pra que eu começasse a observar que havia tampas de umas panelas que se encaixavam em outras, ou até que algumas tampas, mesmo não encaixando, faziam o serviço de tampar muito bem; algumas dessas eram até melhores do que as que encaixavam, porque deixavam um espacinho para o que estava dentro da panela "respirar", o que às vezes é necessário na cozinha. E as laranjas sempre me intrigaram: se era pra eu encontrar minha metade da laranja, isso significa que nós, eu e minha metade, éramos uma laranja inteira em algum ponto da vida? Mas então, quem nos separou? Nunca fui separado de ninguém, exceto de minha mãe... e bom, acho as teorias Freudianas insanas extravagantes demais, então isso não significa nada para moi.

E assim eu fui crescendo e crescendo e lapidando mais a epígrafe da frigideira, ao mesmo tempo que ia derrubando panelas e tampas, esmagando laranjas e exorcizando almas por aí. E olhando pra trás, vejo um caminho um tanto quanto direto que me trouxe ao ponto em que me encontro hoje: ser um serzinho que estaria de mãos dadas com o gauche do Drummond. Um gauche que acabou desviando de todos os exemplos que meus instrutores e educadores me deram, formando opiniões opostas às deles e que, por fim, não acredita em uma só tampa em cima de mim, ou de uma só laranja inteira fazendo suco junto comigo ("inteira" porque essa história da metadinha incompleta não rola), ou sabe-se lá mais o quê no singular tendo uma relação comigo.

Também não vejo muita graça em macacos que pulam de galho em galho, mas tem horas que por mais que sua casa e todo seu carinho estejam depositados em um galho, aquele outro tem frutos que o seu não tem. E para pegá-los, é necessário se desprender fisicamente deste galho para alcançar o outro e depois voltar para seu galho, satisfeito. Ainda não achei motivos o bastante para invalidar esse meu posicionamento. O que mais ouço em relação a isso é a já desgastada frase "Mas se você tem um sentimento pela pessoa e um relacionamento com ela, é errado trai-la." ou "se você gosta, então pra quê trair?". São dois os pontos que permeiam essas questões:

1) Quem disse que é errado? Papai e mamãe, o padre, o pastor, o bispo, a novela, o livro, o filme? Legal. E quem disse pra eles? Seus papais e mamães, seus padres, bispos e pastores, suas novelas, livros e filmes. E quem disse pra eles? ... E assim vamos indo, indo e indo até chegarmos a um ponto onde a monogamia não ocupa mais o lugar que ocupa hoje. No passado, o conceito era tão diluído quanto Tang em jarra de suco. Uma relação monogâmica era uma mera característica de um determinado relacionamento e não um dever moral, como é hoje. A monogamia não foi nada além de mais uma instituição social que atendeu aos interesses de um grupo dominante. A crítica a essa instituição vai muito mais além dela própria, já que ela não se encontrava solta por aí, mas sim conectada a um outro grande grupo de valores, regras de conduta e crenças que também foram instituídas em um momento sócio-político adequado. Mas isso não é assunto pra hoje.

2) A primeira definição para o verbete "trair" no dicionário Michaelis é "enganar por traição; atraiçoar". A primeira palavra da definição é "enganar", que se define por "empregar enganos; embaçar, embair, iludir" no mesmo dicionário. Então é plausível afirmar que a "traição" em um relacionamento a dois envolveria um emprego de engano e de ilusão por parte de um pareceiro, ou seja, envolveria mentira. Mas... e se não envolver? O mero fato de relacionar-se com outra pessoa em um campo exclusivamente físico constituiria traição? O carinho, o sentimento, a admiração e todo os outros trá lá lás pelo parceiro amoroso ainda continuam lá. A única coisa que saiu de cena foi o corpo de um dos dois. "Mas você deveria se satisfazer fisicamente com seu parceiro". Sem dúvida que a satisfação física faz parte integrante de um relacionamento a dois, mas todas as satisfações físicas nunca serão atingidas com apenas uma pessoa (ou até mesmo com várias delas). Há sempre alguma(s) coisa(s) que a pessoa simplesmente não tem e que a vizinha tem. Não entendo a lógica do se privar de outros prazeres diferentes por conta de um relacionamento. Como disse, o único elemento do relacionamento que sai de cena é o corpo. Então há duas possibilidades: Ou a relação "físico / sentimental" já se tornou absurda e erroneamente indissociável ou a posse tem um papel importante e determinante no relacionamento.

Aguardo ansiosamente alguém que possa me oferecer argumentos inteligentes em uma conversa que propiciem uma discussão frutífera a respeito disso tudo. Enquanto isso, rolo minha pele de ovelha no piche e na sujeira, ficando cada vez mais escurinho no rebanho.
posted by Rafael @ 12:55   2 comentários

domingo, 27 de setembro de 2009
"O que lhe é essencial?"


A pergunta não foi dirigida a mim, mas em um momento de uma aula, um professor perguntou a um aluno o que era essencial à vida dele. Aquilo que, se retirado, faria sua vida perder o sentido.

Quando ouvi a pergunta - bem do tipo das que mais gosto - logo me pus a pensar. O que era, de fato, essencial à minha vida? Aquilo com o qual eu não conseguiria viver sem? Pensei por uns instantes e a primeira resposta que me veio foi: "amigos". Sem dúvida, pessoas com uma importância ímpar em minha vida. Mas se todos eles morressem em um acidente catastrófico ou simplesmente deixassem de ser meus amigos por motivos diversos? Eu deixaria de viver?
A vivência de finais de semana completamente sozinho em uma casa pra lá de bagunçada me mostrou que não, eu não deixaria de viver caso ficasse sem amigos. É claro que não abro mão de minha vida com eles, mas percebi que eles não são a essência da minha vida, embora possam ser combustíveis, apoios, forças e toda uma sorte de caracterizações que demandariam a escolha de muitas mais palavras.

Então, afinal de contas, o que era a essência da minha vida? A essa altura do campeonato, o garoto a quem a pergunta tinha sido originalmente dirigida já havia respondido: "Família". Pensei sobre isso. Foram incontáveis as vezes que ouvi a respeito da importância da família e como ela é realmente a única coisa que "sempre estará lá por você". Mas, sinceramente, nunca fiz disso um dos norteadores da minha vida. Por sabe-se lá quantos acidentes de percurso e estímulos casuais, me tornei alguém pra lá de desapegado à idéia de que minha família é meu porto seguro e que sempre estarão lá por mim. Para o bem o para o mal, não é esse o ponto central de minha vida, muito embora eu não ache que alguns familiares deixariam de fazer o possível para me ajudar, caso precisasse. Só não faço disso um dogma.

E a interrogação se instalava mais profundamente. O que me era essencial?
Pensei, pensei e pensei e dali a uns minutos tive a resposta que, admito, me surpreendeu.

Minha essência, pelo menos nesse momento de vida, era a crítica.
Por "crítica" refiro-me a um posicionamento crítico frente à vida como um todo, não a palavras que criticam diferentes situações (embora isso também possa fazer parte de um posicionamento crítico). O que me é essencial para viver é ter a capacidade de olhar para diferentes situações e construir uma opinião realmente minha sobre cada uma delas. É-me essencial sentir-me deslocado do mundo em alguns aspectos e não me ajustar a eles só para eliminar a sensação de patinho feio. É essencial ser desassossegado com condições adversas, é essencial querer mais do que me é apresentado numa primeira vista, querer extrair mais de mim, ter agonia da estabilidade, desconfiar do perfeito, querer o concreto.

O essencial para mim é ser o peixe que nada contra a correnteza do rio.
posted by Rafael @ 15:47   0 comentários
 
Pessoa

Quem? Rafael

Rafael? Clique aqui

Onde? Bauru, SP

Por quê? Depois de um intenso ano de estudos consegui o que queria: uma vaguinha em uma univer- sidade pública, no caso, a Unesp. Com o pacote, veio a necessidade de deixar Sampa City e começar uma nova vida aqui.

E...? Estudo psicologia

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Recapitulando
 
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